Mais prevalente entre as crianças, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) pode não terminar na infância. Cerca de metade das pessoas com esse transtorno carregará o problema para a vida adulta. É gente que esquece compromissos, tem dificuldade para cumprir prazos e dar sequência em tarefas simples, como ler um livro ou assistir a um programa de televisão até o fim. Numa reunião ou palestra, não consegue se concentrar, perdendo informações e detalhes importantes.
Em alguns casos, tudo isso pode vir acompanhado de instabilidades de humor, que faz a pessoa transitar facilmente da alegria para a tristeza (e vice-versa), e de baixa capacidade de lidar com frustrações, com explosões que caracterizam esses indivíduos com gente de “pavio curto”. Há também estatísticas desfavoráveis para as pessoas com TDAH: em comparação com quem não tem o transtorno, elas têm expectativa de vida menor, entre outras razões, pelo fato de se envolverem mais facilmente em acidentes ou abusarem mais das drogas lícitas e ilícitas.
Estima-se que o TDAH afete até 5% das crianças e 2,5% dos adultos. Ou seja, na transição para a vida adulta, metade dos pacientes consegue desenvolver mecanismos para se adaptar aos sintomas do TDAH, ou seja, consegue controlá-los de forma que não causem dificuldades à sua rotina de atividades. Já a outra metade segue sofrendo com problemas que podem impactar em graus variados a vida pessoal e profissional, dificultando os relacionamentos e o desenvolvimento da carreira. Enquanto nas crianças os sintomas preponderantes são a hiperatividade e a impulsividade, nos adultos prevalece o déficit de atenção. Além disso, na idade adulta, o TDAH atinge de maneira equilibrada homens e mulheres. Na infância, a proporção é de quatro meninos para uma menina.
O TDAH é um transtorno com forte componente genético e está relacionado ao mau funcionamento dos neurotransmissores, dopamina e noradrenalina, associados, respectivamente, à atenção e à capacidade de execução das tarefas. Aproximadamente 60% dos filhos de quem tem TDAH apresentarão o transtorno em gradações diversas, que vão do grave até o imperceptível.
O TDAH não tem cura, mas tem tratamento. Antes de tudo, é fundamental contar com um diagnóstico clínico preciso, com cuidadosa análise dos sintomas e histórico do paciente desde a infância, inclusive ouvindo outras pessoas – familiares e outros indivíduos de sua rede de relacionamentos. A avaliação tem como base os critérios definidos pela Associação Americana de Psiquiatria – são nove critérios de déficit de atenção e nove de hiperatividade e impulsividade. A ocorrência de comportamentos associados a pelo menos seis deles, por mais de seis meses, pode ser indicador de TDAH e exige uma investigação mais aprofundada. Também devem ser descartadas doenças como hipertireoidismo e distúrbios do sono, que podem gerar déficit de atenção, e eventuais comorbidades decorrentes ou associadas ao TDAH, como depressão, uso de drogas e transtorno de conduta (caracterizado pela dificuldade de respeitar as regras sociais).
Há dados preocupantes em relação ao diagnóstico desse transtorno. Um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul mostrou que apenas 20% das pessoas com TDAH são diagnosticadas. Em contrapartida, há um grande número de indivíduos diagnosticados com esse transtorno sem tê-lo efetivamente. Ou seja, há pessoas recebendo tratamento incorreto, pois, possivelmente, sofrem de outras doenças ou transtornos, e há muitos portadores de TDAH sendo negligenciados.
Nos adultos, o tratamento mais indicado é o psicoterápico, particularmente a terapia cognitivo-comportamental, que ajuda o indivíduo a desenvolver estratégias para lidar com as limitações. Em casos mais graves e específicos, quando os sintomas causam grande sofrimento ou fortes prejuízos para a vida pessoal e profissional, podem ser indicados também medicamentos estimulantes ou não estimulantes. Quando necessários, sua prescrição tem de ser criteriosa. Estimulantes, como as anfetaminas, são os medicamentos que oferecem as melhores respostas, mas podem causar dependência, além de aumentarem riscos de problemas cardíacos. Por isso, exigem rigoroso acompanhamento médico. Lançadas mais recentemente, as drogas não estimulantes parecem ter eficácia menor, mas apresentam efeitos colaterais mínimos, o que faz com que apresentem uma relação entre taxa de risco e benefício mais vantajosa.
Do ponto de vista do indivíduo, o passo mais importante começa antes disso tudo: é reconhecer que algo está errado. Com frequência, o preconceito contra distúrbios mentais faz com que a pessoa retarde ou nem busque a ajuda de um especialista. Fugir de problemas que podem estar associados ao TDAH ou buscar atalhos que não levarão a lugar nenhum é o pior caminho a seguir. Tratar o TDAH é investir em saúde e qualidade de vida pessoal e profissional.
Com informações: Hospital Albert Einstein