O bruxismo é uma desordem funcional que faz a pessoa pressionar e desgastar os dentes de maneira inconsciente, ou mesmo o popular ranger os dentes. O problema pode se manifestar tanto enquanto a pessoa está acordada ou dormindo. Como apontam estudos, depois do início da pandemia, mais pessoas passaram a ranger os dentes por conta desse problema.
A condição começa imperceptivelmente durante alguns momentos e pode acabar se intensificando, causando outros problemas em consequência, como dores e má qualidade do sono. A condição pode estar ligada a fatores genéticos, fechamento inadequado da boca ou situações de estresse, tensão e ansiedade.
Em casos mais graves, o bruxismo pode causar desgaste dos dentes, podendo levar à quebra dos dentes. Durante a pandemia da Covid-19, o número de casos dessa disfunção aumentou consideravelmente.
Um estudo feito por pesquisadores poloneses e israelenses analisou quase 1.800 cidadãos dos dois países e verificou a relação entre os efeitos da ansiedade e preocupação despertadas pela pandemia, os índices de bruxismo e disfunção temporomandibular (DTM), quadro que causa alterações e dores na articulação que liga a mandíbula ao crânio.
A constatação é de que a pandemia e o isolamento social causaram efeitos significativos na saúde emocional das duas populações, resultando numa intensificação dos sintomas de bruxismo e DTM em 34% dos participantes poloneses e 31% dos israelenses.
Um trabalho semelhante foi feito no Brasil por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Faculdade de Odontologia da USP em Bauru. A análise feita com mais de 600 dentistas mostrou que o confinamento levou ao desenvolvimento de sintomas de bruxismo em metade desses profissionais.
Seguindo a mesma linha desse estudo, um levantamento foi feito com 50 alunos de pós-graduação em odontologia e psicologia da PUC do Rio Grande do Sul. Resultados preliminares mostraram que os casos da desordem durante o sono mais que triplicaram durante o período pandêmico (passando de 8 para 28%).CC
O mesmo trabalho também indicou que a incidência de casos de bruxismo de vigília, que ocorre quando a pessoa está acordada, dobrou de 6% para 12%.
Entendendo melhor a doença
O Dr. Carlos Schlischka, especialista da Jolivi Natural Health, afirma que os sintomas do bruxismo são dor na região dos dentes, nos músculos da mandíbula, principalmente na área da bochecha e perto das orelhas. Depois, surgem estalos na articulação, dificuldades para abrir a boca e mastigar, mordidas involuntárias na língua e gengiva e alteração na mobilidade dos dentes.
Também podem surgir outros sintomas como dor de cabeça, pescoço e membros superiores, tontura, zumbido nos ouvidos, desorientação e má qualidade do sono. Esse pacote de sintomas acaba deixando o indivíduo cada vez mais tenso, piorando a condição.
O diagnóstico da disfunção pode ser feito através da polissonografia, um exame que também detecta outros distúrbios do sono como o ronco e apnéia.
O exame vai detectar alterações que o bruxismo causa no sono, como microdespertares. Elas predominam no estágio do sono que chamamos de sono REM, que é quando não há sonhos.
Fatores emocionais influenciam no surgimento do bruxismo, pois pessoas mais ansiosas e introvertidas têm mais propensão de desenvolver o apertamento dos dentes.
Além disso, a ingestão de álcool também está relacionada com o crescimento do bruxismo noturno. Isso acontece porque a bebida relaxa a musculatura e restringe a passagem de ar durante o sono. Estudos indicam que o consumo de álcool aumentou durante a pandemia, o que pode explicar a relação entre o período da Covid-19 e o ranger dos dentes.
Por fim, o ganho de peso, algo que foi comum durante o isolamento social, também pode ter relação com o bruxismo. A explicação é que a língua e a região do pescoço também ganham volume com o excesso de gordura, podendo obstruir ou causar resistência à passagem de ar pela região.
Prevenção e tratamento
A melhor maneira de prevenir o bruxismo é uma mudança na qualidade de vida. Os profissionais recomendam praticar exercícios físicos, comer em equilíbrio, ter hobbies e prezar a higiene do sono. Isso é, criar e respeitar um horário de dormir, apagar as luzes, desligar os aparelhos eletrônicos antes de dormir e verificar a qualidade do colchão e do travesseiro.
Também deve-se evitar a mania de morder objetos como canetas ou até mesmo deixar o queixo ou a lateral da cabeça apoiado nas mãos, pois isso deixa a mandíbula sob pressão. Outra atitude importante é evitar roer as unhas, pois mesmo não estando ligado diretamente ao ranger de dentes, isso pode sobrecarregar a articulação da mandíbula, piorando o quadro de bruxismo.
Para quem já sofre com a disfunção, o indicado é o uso de placas intraorais para relaxar a musculatura da mandíbula e impedir o movimento de bruxismo.
Essas placas podem ser duras, feitas de acrílico ou moles, feitas de silicone. Elas também previnem o desgaste dentário e fraturas na região que podem ocorrer durante o sono.
Também outros tipos de tratamentos, como a avaliação odontológica e tratamento dos erros da mordida (disoclusões). Além disso, indica ioga, acupuntura e massagem circular com os dedos na região das dores e o calor local para o relaxamento muscular da mandíbula.
No caso do bruxismo de vigília, o ideal é prestar atenção nos comportamentos do dia a dia. Isso inclui reparar um possível tensionamento ou ranger dos dentes, praticar técnicas de respiração profunda e meditação para evitar que as emoções sejam descontadas na boca e poupar as articulações e a musculatura da face.