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Em 1973, o poeta Carlos Drummond Andrade, escreveu uma crônica intitulada, “A Pequenina Cruzília” sobre a cidade de Cruzília, que foi publicado no Jornal Estado de Minas e no Jornal do Brasil.
O poeta inicia o texto apresentando a pequena cidade ao Brasil.
“Era uma encruzilhada, no caminho de São Paulo para as Minas, no começo do século XVIII. Nessa encruzilhada se fixaram alguns moradores, sob a proteção de São Sebastião. (...) Cruzília não quer emparelhar-se com Belo Horizonte, que avança para chegar a 2 milhões de habitantes e meio milhões de problemas; contenta-se com 10 mil moradores, em seu único distrito. Mas desses 10 mil moradores, é justo destacar, umas poucas irmãs camilianas, cuja congregação se fundou em Roma para cuidar de enfermos em hospitais, leprosários, ambulatórios e casas particulares. O hospital, que elas dirigem, em cidade tão pequena, dispõe de cirurgião,obstetra, cardiologista... (...)
E dizer que o interior não atrai médicos especializados... Atrai sim, quando eles encontram no interior condições técnicas de trabalho, além de conforto pessoal.
Cruzília possui isto. Seu hospital é um brinco e, bem articulado com Unidade Sanitária local, torna a cidadezinha um pólo médico de causar inveja”.
O poeta ainda questiona: “... Estou vendo o leitor dizer: - Mais uma das mentirinhas do CDA. Município assim não existe! – Existe, meu caro, e digo mais: Cruzília não quer só para si os benefícios de uma organização médico-assistencial que pode ser onsiderada modelo. Gostaria que as populações vizinhas também se valessem dos recursos de uma obra comunitária testada e aprovada. Pois o que ali fez este prodígio foi o espírito comunitário, a reunião de gente boa, que tornou espiritualmente grande um burgo mínimo, dentro da concepção das cidades humanas e não das aglomerações atrozes”.
Depois o poeta faz um pedido: “... Para estender aos moradores da região este serviço de qualidade, Cruzília precisa apenas de 10 quilômetros de fita asfáltica, em ligação com a BR-267. Dez quilômetros que a comunidade, por maior que seja sua disposição generosa, não tem condições de fazer. É assunto estadual e assunto
federal. Se há sentido social numa rodovia, ou num pedaço de rodovia, creio que este é ocaso”.
O poeta se justifica: “Mas por que estou falando de uma organização de saúde municipal e de uma fatia de estrada, se minhas matérias são outras, e nem tenho poder político para dizer: “Façam-se os 10 quilômetros”, e os 10 quilômetros serem feitos? Nem acredito que o DNER e DER se debrucem sobre estes escritos leves, mas é a tal coisa: tomei conhecimento de Cruzília, fiquei impressionado e comovido com aquele cantinho de terra sul-mineira, e aqui estou pedindo sem saber pedir, sem ter talento e autoridade para pedir, 10 quilometrozinhos de asfalto para as irmãs camilianas e seu hospital e sua equipe médica e mais a Unidade Sanitária e mais a boa gente da antiga Encruzilhada, que na cruz dos caminhos não bota despacho, bota esperança, alegria e saúde.”
Drummond tinha a propriedade de falar aos corações dos homens, transpassando as dimensões do possível. Sua crônica foi lida pelo presidente da Organização Mundial de Saúde, que passava férias no Rio e também se comoveu com a descrição do poeta e da história por ele narrada. Como ele teria em sua visita ao Brasil um encontro com o governador de Minas, Rondon Pacheco, trouxe ao governador um recorte do texto de Drummond e o pedido de conhecer a tal cidade. Rondon viabilizou sua ida a Cruzília e sem ninguém saber de quem se tratava, conheceu e se encantou com o hospital das irmãs camilianas.
Na volta para Belo Horizonte, formalizou seu pedido do asfalto ao governador, com a justificativa de que aquele hospital poderia atender a toda região, minimizando o déficit sanitário no sul das Gerais. Seis meses depois, por designação do governo do Estado, chegava até a pequena Cruzília, 10 quilômetros de afasto.