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Carta escrita por Dr. José para Irmã Cecília quando ela foi embora do hospital.

01 de maio de 1962

“Nunca na história de Cruzília, ninguém fez tanto por tantos em tão pouco tempo”. Não seria necessário que a senhora ouvisse esta afirmativa dos médicos, das suas amigas ou de tantos quantos a sua caridade beneficiou. Ela deve estar no fundo de sua alma, menos como afirmação de vaidade que não pode ser morada num coração do quilate do seu, do que como um consolo da vocação vivida, realizada, sofrida, e por que não dizê-lo? Sublimada há 16 anos. Mas eu preciso dizer ou repedir essa verdade, diante de Cruzília, às vésperas de sua partida, para que os ecos desse discurso fiquem flutuando por ai e um dia, cheguem até Roma também...

Se Cruzília não fizer isso, que juízo fará de nós todo este Sul de Minas que conhece, admira, beija as mãos da irmã Cecília e já julgou a densidade, a penetração, o sentido do seu apostolado? Apostolado é assim: feito com a alma; feitos de pedaço do coração; tecidos com os fios da bondade na talagarça do amor do próximo cedidos nas vigílias longas das noites de inverno , quando só Deus vê as canseiras da gente e nos alerta a prosseguir. Apostolado é assim ou as palavras não têm sentido nenhum.

Só uma coisa realmente existe: a verdade. A palavra que sela ou afasta pode ser erro e pode ser falsidade. O erro se retifica, A falsidade se pune. A luz que dá em cheio nos erros não cobre de vergonha os que de boa fé se enganaram. Mas a ignomínia da hipocrisia, da mentira, das traições ferreteia is Judas, marcando-os com a flor de liz da desonra, quando os infelizes a si mesmos não fazem justiça, dependurando a um galho de figueira, a garganta, por onde passou a palavra, falseada na sua divina finalidade. No principio era o verbo. E o verbo era Deus.

Minhas senhoras: A mulher tem a necessidade das grandes distancias e a instabilidade dos pequenos percursos. Servir a vida é seu destino orgânico e o fundo de sua natureza moral; afirmou Amoroso Lima, o grande pensador brasileiro.

Cerca de 1500 partos, na sua quase totalidade sob as visitas da sua irmã superiora, perguntem ao fundo de nossos arquivos: Quem serviu mais e melhor? Quem mais serviu a mãe pobre, preta ou branca, a mãe rica, reconhecida ou não, ao filho, a família nesses plantões insones e de angustiantes sobressaltos?

Meus amigos de Cruzília, falando diante do túmulo de Miguel Castro, Aloísio de Castro. O discípulo amado se levantava... Agora que não sabemos mais onde pôr a esperança... Esta festa quase tumular é a festa de despedida. Sobra-lhe sinceramente... Nem lhe faltam lágrimas. Despedida que significa para esta casa o vazio, a desesperança, o mesmo vácuo que sentiu Aloísio de Castro com a partida do grande mestre. Este vácuo ninguém o preencherá! Ninguém! Ninguém!

Porque sua ausência deixará neste hospital, como o sangue das vítimas no altar, a marca do sacrifício. E ela será uma presença viva a nos ensinar, a nos dirigir, a nos animar e a nos fortalecer.

Superiora: continue! Aqui ou onde Deus a levar, mas continue! Sua conduta é uma lição! Lembro do poeta parnasiano Luiz Caros:
Não te assustem pedradas
Olha o mundo com olhos virgens do relance da ira
Vê que o solo ferido é mais fecundo.
E se tens lua o céu, por que temê-las?
As pedras que o homem contra Deus atira, 
Ao contrário do céu, tornam-se estrelas.

Superiora: Continue! Não tenho palavras para agradecer-lhe tudo quanto a senhora fez por Cruzília. Compreendemos a sua missão. Saiba que com a sua saída, Cruzília se diminui... Cruzília se limita... A cidade se desfalca,,, Cruzília se constrange e se limita... Cruzília é roubada no melhor de seus tesouros... Deixe aqui a sua lembrança, muitas saudades e o seu perdão.

Nossos votos a Deus são para que aquela que há de vir ocupar o seu lugar, por imperativo de Canon 505 – substituí-la jamais! Tenha as suas virtudes e a sua missão. O seu conhecimento e a sua caridade; a sua paciência e alegria contagiantes. È mais que tudo isso; a sua evangélica capacidade de sofrer a injustiça e continuar sorrindo para os seus doentes, com o coração de luto, atrás dessas Cruz Vermelha!...

Superiora: Não se esqueça de nós! Sobretudo não nos abandone, nem deixe órfão esse hospital. Aqui existia uma casa... Em Cruzília havia médicos... Mas esse hospital, vivo, atuante com mais de um parto por dia e 2.500 atendimentos por ano, é criação sua. Não o desampare. Aos seis anos toda criança ainda precisa da mãe e a construção está com dois anos e pouco... Não a enjeite... A maternidade nova, o sonho de um sonho, a melhor que se constrói no Sul de Minas, precisa do seu afeto, do seu desvelo, da sua sombra do seu sacrifício! Não afaste de si o seu cálice. Até Cristo teve seu jardim das oliveiras... Nem lhe faltou à senhora, ainda há pouco a última ceia... Rejubile-se!

Caríssima superiora! Vejo-a, continuamente descendo de Jerusalém a Jericó, no caminho iluminado de sua vida, usando com alguém da misericórdia – como está em S. Lucas. Mas Deus que fez os caminhos e, com as samaritanas de São Camilo fez também as tempestades do céu e a estrada de Damasco na terra!...
Superiora, até breve! Irmã Cecília, até já!