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As manifestações de carinho com que nos brinda as cidade por seus representantes do Executivo e do Legislativo, neste meio século de serviços médicos que lhe foram prestados, como a água que mata a sede, o alimento que mata a fome , o leito macio, depois da longa caminhada , ativam, reparam, reanimam. Criam mesmo energias dormidas dentro do meu coração remendado, mais que ainda tem um resto de corda para um resto de vida. 

Muito obrigada Sr. Prefeito, Srs. Vereadores. Ao cônego Sebastião, cuja assistência religiosa tanto nos comoveu, quero, em meu nome e do mano, agradecer de todo o coração.

Vai aqui o prólogo da minha história

Terminando o meu curso na Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, ao chegar em casa, disse a Papai que, à minha revelia, sem que quisesse ou previsse, fora nomeado médico adjunto do Hospital São João Batista, de cuja maternidade eu era interno há três anos e onde ganhava 60 mil reis por mês. Disse-lhe que ainda pretendia fazer concurso para médico da Assistência Municipal, onde por dois anos também fora interno e as noções de obstetrícia que eu tinha me davam certa projeção entre os médicos daquele serviço, quase todos fazendo apenas cirurgia. Como desejava enfim, fazer medicina no Rio, trabalhei muito em Botafogo, porque eu assistia muitos partos em quarto particular, e já me telefonavam, inúmeras vezes, pedindo rua e número do meu consultório.

Com aquela autoridade que lhe marcava o caráter, o Papai interrompe a minha narrativa, dizendo: “ O Rio tem muitos médicos e aqui, nenhum. Eu formei vocês para que a Encruzilhada tivesse médicos”. Silêncio, pausa. “ Bonecos à caixa”, como ele gostava de dizer. Acordei do sonho e aqui me tendes há 50 anos, agora com tantas pessoas a me abreviarem das minhas cruzes.

Esta homenagem só não me envaidece porque tenho autocrítica bastante para conhecer as limitações que me confiaram dentro do meu mundo interior. Do outro lado, me isolam.

O que me entusiasma é este hospital que deu a Cruzília, ínfima, desconhecida, pobre, a honra, o direito, o mérito de ser um dos pólos da medicina do Sul de Minas. O que me envaidece é saber que filhos e netos de Cornélio Maciel mantém acesa, viva, a chama que ele empenhou em toda a sua vida de renúncia e doação, de caridade e desprendimento, de amor e sacrifício que ninguém mais do que ele soube dar à sua terra natal.

Não posso esquecer, quando tenho diante dos meus olhos esse hospital, a irmã Cecília, que aqui veio com três irmãs, solicitadas por Adalgiza Mori Ferreira, para por em funcionamento a pequena casa que ainda não funcionava , construída e fechada. Irmã Cecília, a quem a providência deu visão, equilíbrio, Inteligência, cultura, doação, humildade, eficiência, simpatia e santidade.

Continuou sua irmã Luiza, essa patrícia rara, a quem o boreal de freiras não amorteceu o espírito caridoso nem a coragem de vencer dificuldades e que hoje não custeia este palácio de ordem, de beleza, de recursos médicos; 80% da construção sua, arrojo seu, temeridade sua, benção do céu que mereceu.

A cooperação da cidade e das fazendas nos grandes leilões, a solidariedade e a conduta dos seus médicos, a dedicação sem limites do Dr. Orígenes, cujas palavras de amizade sempre nos sensibilizaram ontem, os desvelos abnegados do Maurílio, cuja presença todos nós bendizemos; do João Bosco, do Silas, do Marcelo, do Amilton, do José Orlando, do Mangia, do Amaury, três promessas certas de médicos certos; a solicitude rotariana do Saulo, a boa vontade da Jucyra, a paciência e a caridade de todas as irmãs, a educação das meninas do escritório, do centro cirúrgico, da cozinha, a Constancia e a perfeição do Paulo, os mil afazeres do Zezinho, que do nada fez e assuste este palácio encantado e é o único médico de suas doenças... Tudo isso me toca profundamente, sempre. No meio desde concreto armado, que alicerça as suas bases, coloquei também eu a minha pedrinha.

A memória do meu Pai, meu mano e eu transferimos as homenagens que distinguem o Sr. Prefeito, Vice-Prefeito e Câmara de Vereadores, profundamente agradecidos.

Se algum dia a posteridade esquecida ou desdenhosa ignorar o passado, lá de outras galáxias, nos lembraremos os tercetos do poeta Augusto dos Anjos:

Quando pararem todos os relógios da minha vida / e a voz dos
Necrológicos gritar nos noticiários que morri / voltando à
Pátria da homogeneidade, / abençoada com a própria eternidade, / há minha sombra a de ficar aqui.